segunda-feira, 17 de julho de 2017

SÓTÃO DA MEMÓRIA




Continuação

O Meu S. João

Das melhores festas do ano, para mim foi sempre o S. João, pela sua alegria e grande manifestação de fraternidade única no mundo.
Os festejos ao S. João na cidade são seculares, mas foi no século XX que o 24 de Junho passou a ser feriado. Tudo graças a um decreto republicano e a um referendo aos portuenses promovido pelo JN. Estava-se em Janeiro de 1911 e a monarquia tinha sido destronada apenas três meses antes com a revolução de 5 de Outubro de 1910. Por decreto, a Republica impunha a cada município do país o seu feriado próprio. Por sugestão do republicano Henrique d’Oliveira foi proposto o 24 de Junho que foi contestado por outros membros do Município, foi quando Souza Júnior lembrou, inspirado num alto sentido de democracia, que devia ser o povo a escolher. O JN dispôs-se a organizar o referendo popular para escolher o feriado municipal. Até que a 4 de Fevereiro de 1911, foram publicados os resultados finais da consulta popular e o dia 24 de Junho foi o mais votado com 6565 votos, seguido pelo 1º de Maio, com 3075 votos
Recordo um ano muito especial, o de 1959, quando a comissão de festas ao S. João Lapa, então presidida pelo Senhor Correia (distinto comerciante da zona,) tomou em ombros a tarefa de levar a cabo, um dos mais brilhantes festejos deste bairro tão popular na cidade. Com tradições muito antigas como o S. João “Liberal” da Lapa, que ficou na história com a célebre quadra:

Eu fui ao S. João a Lapa / E da Lapa fui ao Bonfim
Estava tudo embandeirado / Com bandeiras de cetim.

Da restante comissão desse ano, faziam ainda parte o Sr. Agostinho, proprietário do famoso “Café Pereira” no marquês. O Mário estofador e o irmão Abílio, filhos do Sr. Arnaldo, autor da cascata movimentada e em cuja cave se guardavam os bambolins, balões para iluminação e metros e metros de festão, feito pelas pessoas da rua nas horas vagas. O Fernando que foi presidente do F.C. da Lapa. O Armando, o António, o Tavares e o Zeca da Miquinhas.
Foi distribuído uma pequena revista de 14 páginas com o programa dos festejos, totalmente paga pelos anunciantes que para o efeito foram angariados. Na revista, podiam-se ler os anúncios das mercearias do Sousa, do Júlio e do Marques, a carvoaria do Amaral e a padaria do Zé, a farmácia “Sanil” que era na rua do Paraíso, o Henrique alfaiate, o Xavier gravador e a Iracema cabeleireira em Faria Guimarães, o Alberto bananeiro e a Aurora das miudezas, nem o meu pai faltou: «Manuel Monteiro, fabricante de brinquedos em madeira, casas, capelas, pontes e coretos em cartão, para as cascatas de S. João».


continua
 


COISAS E LOISAS




terça-feira, 11 de julho de 2017

SÓTÃO DA MEMÓRIA





continuação

O Carnaval era divertido, pelas brincadeiras, pelas partidas que se faziam sem ninguém levar a mal. Com bisnagas redondas em baklite, que cabiam na palma da mão, para molhar quem passava. Os estalinhos com chumbinhos embrulhados em papel. Ampolas de cheiro que ao partirem espalhavam um odor pestilento em redor. Haviam também os pirilampos, umas tiras de cartão com fulminantes, que raspados na parede estalavam no meio das mãos em concha. Os chapéus coloridos de papel de crepe. Cornetas em cone coloridas e as “Línguas da Sogra” que ao soprar, alem de assobiarem, se distendiam com uma pena colorida na ponta e voltavam a enrolar impelidas por uma mola. Haviam as máscaras de cartão com caretas medonhas e óculos com grandes narizes e peludos bigodes, serpentinas e balões.
Nós, os mais mariolas, atávamos linha preta aos batentes e ficávamos escondidos a bater às portas até irritar o vizinho. Colava-mos moedas ao chão para nos rirmos ao longe das pessoas que não conseguiam apanhá-las. Porta-moedas vazios atirados ao chão, com uma linha que puxava-mos ao ser apanhados. Enfim, eram partidas inofensivas, mas que serviam para nos fazer rir dos incautos. De tudo o que compunha as festas de Carnaval, aquilo que eu mais gostava era do cortejo dos Fenianos Portuenses. Os carros alegóricos, coloridos e artisticamente decoradas, sempre com uma intenção subtil de sátira ao governo, criticando por entrelinhas a situação em que se vivia na país, sempre contornando a policia politica e a atenção da censura. A maior parte destes carros, eram promovidos por empresas que aproveitavam para fazer publicidade aos seus produtos, como a pasta medicinal Couto.
Componentes mascarados, caricaturando grotescamente as figuras públicas, atirando montes de serpentinas e confetis coloridos. Cabeçudos, fantoches e fanfarras de fardas coloridas, bandas de música e Zés Pereiras alegravam as ruas por onde passavam. No dia do corso, minha avó levava-nos sempre para o mesmo local, sentávamo-nos no muro da igreja de Fardelos na esquina de Sá da Bandeira com a rua Guedes de Azevedo, o cortejo passava em direcção ao largo do Bonjardim, Gonçalo Cristóvão, descia Camões terminando na Trindade junto á sede do Clube dos Fenianos. O dia do cortejo era um dia diferente e mesmo o comércio, fechava para ver passar pelas ruas a festa do Entrudo. 
Cheguei a assistir na cidade a outros cortejos, como o do circo onde estrelava a trapezista Pinita Del’Ouro, que se exibia no Pavilhão do Palácio de Cristal, no Circo “Arraiola Paramés”. Este desfile era monumental pelos animais que trazia para a rua, elefantes, cavalos e jaulas de tigres e leões puxados por tractores. Artistas de circo com suas vestes coloridas, desde malabaristas, acrobatas, ilusionistas, etc., exibiam-se em plena rua com suas artes e habilidades, atraindo a criançada.  
Conto-me meu pai, que já em 1934, tinha visto algo parecido com o desfile de animais da selva e carros alegóricos dedicados à História da Expansão Colonial Portuguesa, quando foi o final dessa Exposição organizada pelo Estado, era como se o império desfilasse, mostrando momentos da história de Portugal, povos de terras distantes, neste país que tinha como principal fundamento a trilogia: “Deus, Pátria e Família”. Esta exposição teve lugar nos jardins do palácio de Cristal, onde para o efeito chegou a ser implantada uma estátua ao espírito colonial português. Esta estátua que esteve desmontada muitos anos nas oficinas da câmara, acabou por ser reconstruída e de novo implantada mas desta vez, na praça do Império, ao fundo da Av. Marechal Gomes da Costa, por ordem da Câmara presidida por Paulo Valada.

continua